Energia Nuclear no Brasil

Energia Nuclear no Brasil

Por que o Brasil não termina o que já construiu?

O que falta na matriz brasileira?

O Brasil é o líder do G20 em eletricidade renovável.

Em 2025, as fontes renováveis responderam por 87% da eletricidade brasileira. Foi o maior percentual do G20, mais de vinte pontos acima do Canadá, segundo colocado com 64%.1 Pela contabilidade oficial brasileira, as renováveis representaram 86,6% da oferta interna de eletricidade.2
Isso muda o ponto de partida. A energia nuclear não entra aqui para corrigir uma matriz que deu errado. Ela é candidata a cumprir, no médio e no longo prazo, um papel que hoje é coberto em parte por combustíveis fósseis.

Cada fonte presta um serviço diferente.

A hidrelétrica ainda responde por 52% da eletricidade brasileira. Além de gerar, é ela quem acompanha as variações do dia: com a expansão da solar, as usinas reduzem geração ao meio-dia e assumem o balanceamento nas horas sem sol.1
Eólica e solar somam 27% da geração, bem acima da média mundial de 17%.1 Produzem muito, e produzem quando o clima deixa.
A hidrelétrica também depende de clima, e isso ficou mais visível. A geração caiu três anos seguidos sob seca prolongada, e cada vez mais usinas brasileiras são a fio d'água, sem grandes reservatórios, o que as deixa mais expostas ao que acontece com a chuva.1
Quando a chuva enfraquece por muitos meses, o sistema precisa de geração que possa ser contratada e mantida disponível, independentemente do tempo lá fora.

O Brasil já paga por firmeza.

19.000 megawatts médios. Foi o que as térmicas brasileiras geraram em agosto de 2021, no auge da escassez hídrica, medido pelo ONS.3
E a contratação continua. Em 2025, com a hidrelétrica recuando, a geração a gás cresceu 12%, com usinas novas entrando em operação em 2024 e em 2025.1
A firmeza já faz parte da matriz brasileira. Hoje, parte dessa geração depende da queima de combustíveis fósseis.

Existe outra candidata para essa vaga.

Eólica e solar já cumprem outro papel na matriz. Para avaliar a nuclear como fonte firme, a comparação relevante é com gás, óleo e carvão.
Ao longo do ciclo de vida, o gás emite de 403 a 513 gramas de CO2 equivalente por quilowatt-hora, e o carvão de 751 a 1.095. A nuclear fica entre 5,1 e 6,4.4
Por unidade de energia, o gás ocupa até 7 metros quadrados-ano de solo e o carvão até 38. A nuclear ocupa no máximo 1,02.5
No indicador de impacto humano por unidade gerada, o carvão está em 24,62 por terawatt-hora, o óleo em 18,43 e o gás em 2,82. A nuclear, em 0,07.6
As três comparações aparecem em gráfico mais abaixo, com as fontes e o método de cada uma.

A objeção mais séria vem de dentro do governo.

O Operador Nacional do Sistema, no plano de 2025, recomenda não acrescentar térmica de alta inflexibilidade nos próximos cinco anos.7 A EPE adverte que o uso intenso de térmicas entre 2013 e 2021 não deve ser confundido com necessidade de contratar térmica na base.3 Usina nuclear opera em base, com inflexibilidade alta, e as duas advertências a alcançam.
Elas descrevem o sistema atual: baixo risco de déficit estrutural, cortes crescentes de geração eólica e solar, e necessidade maior de flexibilidade. A energia nuclear não responde ao problema imediato do despacho. Também não acompanha a subida rápida da demanda no fim da tarde, que exige recursos capazes de variar a geração em pouco tempo.
O papel possível dela aparece em outro horizonte: geração contínua por períodos longos, sem depender da chuva, do vento ou do sol.

Por que essa pergunta é brasileira?

Chuva, vento e sol não pertencem a ninguém. Urânio pertence.

O Brasil tem a nona maior reserva de urânio já identificada no mundo8 e prospectou só um quarto do próprio território.9 Minera em Caetité, enriquece em Resende e fabrica o elemento combustível em Resende: três das quatro etapas do ciclo, em escala industrial.10 A quarta, a conversão, é contratada fora, e pelo relatório da própria INB é a de menor participação no custo do ciclo.11
A pergunta, então, é estreita: quando o país precisar de geração que permaneça ligada por meses, quanto continuará vindo de combustíveis fósseis e quanto poderá vir da energia nuclear?
Entre as fontes limpas, a nuclear tem uma característica singular: o insumo dela é um estoque dentro do território brasileiro. Para que isso vire soberania, falta concluir uma etapa da cadeia.

A lição alemã

Em três anos, o preço da eletricidade para a indústria alemã mais que dobrou.

€ 96,70 por MWh · 2º semestre
€ 201,00 por MWh · 2º semestre

A guerra na Ucrânia interrompeu o fornecimento russo. Em 2021, a Rússia respondia por 65,4% do gás importado pela Alemanha; em 2023, sua participação nas importações diretas já era zero. A Alemanha precisou substituir rapidamente esse gás em um mercado pressionado.12

As séries mostram o que aconteceu no mesmo período; não medem quanto do aumento foi causado isoladamente pela perda do gás russo. Fonte: Eurostat.

Na Alemanha, a dependência estava no gás. No Brasil, ela está no combustível nuclear.

O urânio brasileiro

O Brasil é o nono país do mundo em urânio já identificado.8

Só 25%do território brasileiro foi prospectado.

A ANM estima um potencial de 900 mil toneladas com novas pesquisas, o que é expectativa e não reserva comprovada.9

O ciclo do combustível

Urânio não vira eletricidade do jeito que sai do chão.

Entre a mina e o reator existem quatro etapas, e cada uma é uma indústria diferente, com fábrica própria.

O Brasil construiu três.

As quatro etapas
Mina Cachoeira, unidade de concentrado de urânio da INB em Caetité, na Bahia Etapa 1 · Brasil Mineração Caetité, Bahia

A única mina de urânio em atividade no país. É de lá que sai o concentrado, um pó que ainda não serve como combustível.13

Fora do Brasil Rússia Etapa 2 Conversão Rússia

Transforma o concentrado em hexafluoreto de urânio, que pode ser processado como gás. O urânio sai do país e volta.

Interior da usina de enriquecimento de urânio da INB em Resende, no Rio de Janeiro Etapa 3 · Brasil Enriquecimento Resende, Rio de Janeiro

A usina aumenta a proporção do isótopo capaz de sustentar a reação dentro do reator. A tecnologia de ultracentrifugação foi desenvolvida no Brasil, pelo Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo, com participação do IPEN.10

Fábrica de Combustível Nuclear da INB em Resende, no Rio de Janeiro Etapa 4 · Brasil Elemento combustível Resende, Rio de Janeiro

Aqui o urânio vira pastilhas e é montado no elemento combustível, a peça que entra no reator de Angra.

A própria INB registra que essa é "a única etapa do ciclo do combustível nuclear que a INB não realiza". Não há prazo anunciado para uma planta brasileira de conversão nem projeto público em andamento.10

O contrato

Em março de 2025, a INB contratou uma empresa do grupo Rosatom para converter e enriquecer até 275 mil quilos de urânio de Caetité.14

Sai Caetité, Bahia Até 275 mil quilos de concentrado de urânio, da única mina em atividade no país.
Fora do Brasil Conversão A etapa que o Brasil não tem onde fazer.
Fora do Brasil Enriquecimento Neste contrato, também feito fora, embora a usina de Resende exista.
Volta Angra dos Reis UF6 enriquecido a 4,25%, até dezembro de 2027, para virar combustível de Angra.

O urânio é brasileiro, a mina é brasileira e a usina fica em Angra. A etapa do meio acontece na Rússia porque não existe onde fazê-la aqui. A contratada foi escolhida em licitação internacional, pelo critério de menor preço global.

O comunicado não publica o valor do contrato nem a quantidade efetivamente remetida. Em março de 2025, o transporte pelo porto de Salvador estava "sendo contratado"; não há documento público de que o embarque tenha ocorrido, e este site não narra a partida como fato consumado. O contrato inteiro, e o que ele não diz, está em A etapa que falta.

Este site é sobre isso:um país que construiu quase toda a cadeia de uma fonte de energia e parou antes de terminar.

Antes que perguntem: as três objeções de sempre, conferidas em fontes de fora do setor.

A energia nuclear é uma das fontes mais seguras.6

The Lancet · Journal of Cleaner Production

É a fonte que menos emite gases de efeito estufa.4

Nações Unidas · UNECE

E a que ocupa menos terra.5

Nações Unidas · UNECE

Fontes

  1. Posição do Brasil em eletricidade renovável e composição da geração. Ember, Global Electricity Review 2026, capítulo 4.7, ano-base 2025. O Brasil gerou 87% da eletricidade a partir de fontes renováveis, descrito pela fonte como "the clear leader among G20 countries", mais de vinte pontos acima do Canadá, com 64%. Hidrelétrica em 52% e eólica e solar somadas em 27%, contra média mundial de 17%. A geração hidrelétrica caiu 6% em 2025, depois de queda de 3% em 2024, sob seca prolongada, e o documento atribui parte da exposição ao desenho do parque: "An increasing number of Brazil's hydro plants are run-of-river, which lack large reservoirs, making them more susceptible to hydrological conditions". Em 2025 a geração fóssil subiu 7,6% e a de gás 12%, com usinas a gás novas ligadas em 2024 e 2025. A Ember é organização independente com base de dados própria, e não órgão oficial brasileiro. O indicador é participação na geração, e não na oferta interna. Voltar
  2. Participação renovável na oferta interna de eletricidade. EPE, Balanço Energético Nacional 2026, ano-base 2025, p. 12: "As fontes renováveis representam 86,6% da oferta interna de eletricidade no Brasil". O indicador inclui as importações, que segundo a própria fonte são quase todas de Itaipu, e por isso não é diretamente comparável com o percentual de geração apurado pela Ember. Voltar
  3. Despacho térmico verificado na escassez de 2021. EPE, nota técnica NT-EPE-DEE-DEA-001/2023, p. 147: "Em agosto de 2021, a geração termelétrica verificada pelo ONS foi de 19.000 Mwmédio". É geração verificada em um mês, e não capacidade contratada nem média do ano. A mesma nota, na p. 148, registra que o uso de térmicas entre 2013 e 2021 "não deve ser confundido, porém, com uma necessidade de contratação de térmicas na base, principalmente por horizontes mais longos". Voltar
  4. Emissões de ciclo de vida. UNECE, Life Cycle Assessment of Electricity Generation Options, 2022, p. 8. Nuclear de 5,1 a 6,4 gCO2eq/kWh; eólica onshore de 7,8 a 16. O gráfico da home mostra o teto de cada faixa. Voltar
  5. Ocupação de solo. UNECE 2022, Figuras 43 e 57, p. 54 e p. 78. Nuclear de 0,52 a 1,02 metro quadrado-ano por MWh, a menor entre todas as tecnologias avaliadas, e de 0,05 a 0,07 ponto de qualidade de solo por kWh, também a menor. Os valores foram lidos dos rótulos das próprias figuras, e a coluna da nuclear não vem rotulada: foi identificada por cruzamento das duas figuras e da legenda. O gráfico da home mostra o teto de cada faixa. Voltar
  6. Mortalidade comparada por unidade de energia. Our World in Data, a partir de Markandya e Wilkinson (2007), The Lancet 370(9591), e Sovacool et al. (2016), Journal of Cleaner Production 112. Nuclear 0,07 mortes por TWh, abaixo de hidrelétrica, gás natural, óleo e carvão, e acima de eólica e solar. O número da nuclear inclui Chernobyl e Fukushima. Voltar
  7. Recomendação do ONS sobre térmica inflexível. Operador Nacional do Sistema Elétrico, Plano da Operação Energética 2025, Sumário Executivo, seção de conclusões, publicado em dezembro de 2024. Trecho literal: "o ONS não recomenda a inclusão de geração térmica com alto nível de inflexibilidade ou com longo tempo de acionamento nos próximos cinco anos. Ao contrário, o SIN tem demandado cada vez mais requisitos de flexibilidade". No mesmo documento, p. 13, a geração inflexível equivale a cerca de 75% da carga global em 2026 e 73% em 2029, e o ONS apresenta essa inflexibilidade alta como causa de risco baixo de déficit estrutural. Voltar
  8. Recursos de urânio. OECD-NEA e IAEA, Uranium 2024 (Red Book), Tabela 1.2a, pp. 22 e 23. Brasil com 167.800 tU em recursos identificados recuperáveis a um custo abaixo de US$ 130 por quilo de urânio, de um total mundial de 5.925.700 tU na mesma categoria. Data-base de 1º de janeiro de 2023. A posição de nono lugar foi calculada sobre os valores da própria tabela, entre os 38 países com valor diferente de zero nessa categoria. Voltar
  9. Prospecção do território. Agência Nacional de Mineração, Economia Mineral do Urânio. Cerca de 25% do território nacional já foi prospectado. O potencial de 900 mil toneladas é estimativa condicionada a novas pesquisas, e não reserva comprovada. Voltar
  10. Etapas do ciclo do combustível. Indústrias Nucleares do Brasil, página Ciclo do Combustível Nuclear. A conversão é registrada como "a única etapa do ciclo do combustível nuclear que a INB não realiza". Enriquecimento em Resende com capacidade declarada de 70.000 UTS por ano; tecnologia de ultracentrifugação atribuída ao Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo com participação do IPEN. Voltar
  11. Custo relativo da conversão. Indústrias Nucleares do Brasil, Relatório Integrado 2021, p. 57: a conversão "compreende o segmento com menor participação no custo total de fabricação do ciclo do elemento combustível". A fonte não apresenta percentual, e é a própria empresa responsável pela etapa que a descreve. Na mesma página: "Atualmente, esta etapa é feita totalmente no exterior, pois não há no Brasil instalação com capacidade industrial para a demanda nacional". Voltar
  12. Gás russo e preço de energia na Alemanha. Eurostat, séries nrg_ti_gas e nrg_pc_205. Participação russa de 65,4% em 2021 e zero em 2023. Eletricidade industrial de 0,0967 EUR/kWh em 2021-S2 para 0,2010 em 2024-S2, faixa IC, excluindo impostos, o equivalente a 96,70 e 201,00 euros por MWh. Voltar
  13. Caetité. Indústrias Nucleares do Brasil, página Produção. Caetité é apresentada pela própria empresa como a única mina de urânio em atividade no Brasil. A mesma página informa capacidades que divergem do Relatório de Gestão 2025, e por isso nenhum número de capacidade é usado aqui. Voltar
  14. O contrato com a Internexco. INB, notícia de 11 de março de 2025: contrato com a Internexco GmbH, do grupo Rosatom, para exportação temporária de até 275.000 kg de concentrado de urânio (U₃O₈) de Caetité, abrangendo conversão e enriquecimento, com retorno como UF6 enriquecido a 4,25% até dezembro de 2027, destinado ao combustível da central de Angra dos Reis. Licitação internacional, critério de menor preço global. Corroboração no Relatório de Gestão Integrado 2025 da INB, p. 48. Não constam valor do contrato, quantidade efetivamente remetida nem a instalação onde o processamento acontece. Voltar

Todos os números desta página vêm de fonte primária conferida. As séries completas, os limites de cada dado e as fontes que foram descartadas estão na página de método.