Energia Nuclearé realmente a fonte que menos emite gases de efeito estufa?
Emissões
O que entra na conta
Duas fontes internacionais publicam esses números, com métodos diferentes.
Esta página se baseia nos dois principais estudos internacionais sobre emissões de ciclo de vida por fonte de energia. O primeiro é da UNECE, a Comissão Econômica das Nações Unidas para a Europa: o relatório Life Cycle Assessment of Electricity Generation Options, de 2022, construiu um modelo único e rodou todas as tecnologias por ele, com premissas declaradas. O segundo é do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas: o Anexo III do Quinto Relatório de Avaliação (AR5), de 2014, reúne estudos já publicados, de métodos e datas diferentes, e divulga mínimo, mediana e máximo de cada tecnologia. As duas fontes concordam na conclusão central sobre a nuclear. As faixas divergem porque os métodos divergem, e essa diferença está explicada técnica por técnica ao longo da página.
O gráfico acima mostra o indicador de mudança climática do relatório da UNECE, expresso em gramas de CO2 equivalente por kWh entregue à rede.1
O relatório usa a metodologia de avaliação de ciclo de vida, ou LCA, conforme a norma ISO 14040. A unidade funcional é 1 kWh de eletricidade entregue à rede, tomando 2020 como ano-base. Isso significa que materiais, energia consumida e emissões são contabilizados ao longo de toda a cadeia e depois relacionados à quantidade de eletricidade efetivamente produzida.
A fronteira do cálculo começa na extração das matérias-primas e dos combustíveis. Inclui seu processamento e transporte, a produção de aço, cimento e outros materiais, a fabricação dos equipamentos, a construção da usina, sua operação e manutenção e, no fim, o descomissionamento. Para a energia nuclear, o inventário inclui ainda a gestão do combustível usado, o armazenamento intermediário, o encapsulamento e o repositório geológico profundo.
O peso de cada etapa muda conforme a tecnologia. No carvão e no gás natural, a combustão direta domina, embora o modelo também inclua o metano que escapa durante a extração e o transporte. Na solar e na eólica, quase toda a emissão está incorporada nos materiais, na fabricação e na construção. Na nuclear, a maior parcela vem do início da cadeia do combustível: mineração e beneficiamento do urânio, conversão, enriquecimento e fabricação do elemento combustível.
Os resultados não descrevem uma usina específica. Para a nuclear, a UNECE modela um reator de água pressurizada de 1.000 MW, com vida útil de 60 anos, eficiência de 34% e combustível enriquecido por ultracentrifugação. O início da cadeia usa dados globais de 2016 a 2020; o tratamento final do combustível se apoia em dados suecos. Como o modelo nuclear é apenas parcialmente regionalizado, sua faixa varia menos que a das outras fontes.
Vida útil e produção são decisivas porque as emissões da infraestrutura são divididas por todos os kWh gerados. Uma instalação que opera por mais tempo ou com fator de capacidade maior distribui o impacto de sua construção por uma produção maior. A matriz elétrica usada para fabricar equipamentos e processar combustíveis também altera o resultado de uma região para outra.
A fronteira tem limitações declaradas. O estudo não inclui armazenamento de eletricidade, reforços da rede, riscos de acidentes, reprocessamento do combustível nuclear nem a reciclagem dos equipamentos desmontados. Também exclui majoritariamente as emissões biogênicas dos sedimentos de reservatórios hidrelétricos. Por isso, os números são estimativas comparativas produzidas sob as mesmas regras, não medições diretas de Angra ou de qualquer usina brasileira.1
As faixas completas
O gráfico de abertura mostra o teto de cada tecnologia, para facilitar a comparação. Aqui está a faixa inteira, do mínimo ao máximo publicado.
Ressalvas da fonte: a faixa do carvão reúne configurações e países diferentes. Na solar fotovoltaica, filme fino emite menos que silício; na solar CSP, a UNECE considera improvável que o teto seja atingido na prática. A ressalva da hidrelétrica é detalhada abaixo.
O que diz o IPCC
A segunda fonte usa outro método, e por isso suas faixas são bem mais largas.
O IPCC é o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Os números desta seção vêm do Anexo III do Quinto Relatório de Avaliação, o AR5, publicado em 2014 pelo Grupo de Trabalho III.2 A diferença para a UNECE está no método: em vez de construir um modelo único e rodar todas as tecnologias por ele, o IPCC fez uma meta-análise, reunindo estudos já publicados, de métodos e datas diferentes, e publicou o mínimo, a mediana e o máximo de cada tecnologia. Os dados se referem ao período de 2010 a 2012, com cobertura global e sem regionalização detalhada.
Por que as faixas são tão mais largas
Reunir estudos diferentes espalha os resultados muito mais do que rodar um único modelo.
Cada faixa do IPCC reúne estudos independentes, feitos em épocas diferentes, com fronteiras de cálculo diferentes. A hidrelétrica vai de 1 a 2.200 gramas, e o topo está associado a reservatório tropical. A nuclear vai de 3,7 a 110. A UNECE, rodando um modelo só, produz faixas estreitas: de 5,1 a 6,4 para a nuclear.
Uma premissa explica boa parte dessa diferença na nuclear: o enriquecimento de urânio por ultracentrifugação, adotado pela UNECE. Muitos dos estudos reunidos no AR5 são de uma época em que o enriquecimento era feito por difusão gasosa, processo que consome muito mais eletricidade e empurra as emissões para cima.
Os dois resultados não se contradizem: respondem a perguntas diferentes. O IPCC mostra a dispersão de tudo que já foi publicado sobre o tema; a UNECE mostra o que um único modelo, com premissas declaradas, produz.
| Fonte | Mínimo | Medida central | Máximo |
|---|---|---|---|
| UNECE 2022 | 5,1 | 5,5 (média) | 6,4 |
| IPCC AR5 | 3,7 | 12 (mediana) | 110 |
A hidrelétrica merece uma ressalva. A faixa da UNECE, de 6 a 147 gramas, exclui majoritariamente as emissões biogênicas de sedimento de reservatório, que podem ser altas em área tropical. É por isso que o AR5 chega a 2.200 gramas no máximo para a mesma fonte: a síntese do IPCC inclui estudos que captam esse mecanismo. Nenhuma das duas fontes autoriza estimar o caso brasileiro: isso exigiria medição de campo que não está em nenhum dos dois relatórios.
O que os dados permitem dizer
UNECE e IPCC usam métodos diferentes, mas chegam à mesma conclusão geral: a energia nuclear está entre as fontes com menores emissões de ciclo de vida. A diferença entre 5,5 e 12 gramas não muda sua posição diante dos combustíveis fósseis.
Fontes
- Emissões de ciclo de vida. UNECE, Life Cycle Assessment of Electricity Generation Options, 2022. Síntese de resultados na p. 8 e Figura 1, com detalhamento por tecnologia no corpo do relatório. Nuclear de 5,1 a 6,4 gCO2eq/kWh, com média global de 5,5. A ressalva sobre emissões biogênicas de sedimento de reservatório está no mesmo trecho da faixa da hidrelétrica. Voltar
- Medianas do IPCC. IPCC, Quinto Relatório de Avaliação, Anexo III, Tabela A.III.2, 2014. Meta-análise de estudos publicados até 2014, com mínimo, mediana e máximo por tecnologia. Voltar
Todos os números desta página vêm de fonte primária conferida. As séries completas e os limites de cada dado estão nas notas acima; as regras do acervo e os conflitos entre números estão na página de método.