Energia Nuclearé mesmo uma das fontes mais seguras?

Segurança

A medida que permite comparar fontes muito diferentes é a mortalidade por terawatt-hora de eletricidade produzida. Um terawatt-hora equivale aproximadamente ao consumo anual de 150 mil brasileiros. A conta cobre a cadeia inteira, não só a usina: mineração, extração, transporte, construção e manutenção. E cobre poluição do ar, não só acidentes.1

O número da nuclear inclui Chernobyl e Fukushima. A compilação atribui 433 mortes ao primeiro e 2.314 ao segundo, e ainda assim o resultado por unidade de energia fica onde está.

Vale dizer de onde vem o número de Chernobyl, porque ele é objeto de disputa legítima. A Organização Mundial da Saúde registra 28 mortes nos três primeiros meses, entre os 134 trabalhadores que desenvolveram síndrome aguda de radiação. Esse é o número de mortes agudas, apurado caso a caso. Os 433 são estimativa mais larga, que incorpora efeitos tardios. As duas cifras respondem a perguntas diferentes e não se contradizem, e o gráfico acima usa a maior das duas.2

O gráfico também mostra o que este site não vai esconder: a nuclear não é a mais segura de todas. Eólica e solar registram menos. O que ela é, é da mesma ordem de grandeza delas, e de outra ordem de grandeza em relação a tudo que queima.

Por que a fama e o registro não batem

A diferença está na natureza das mortes, não na quantidade.

Pergunte a alguém qual fonte de energia mais mata e a resposta virá rápido. Chernobyl, Fukushima, a nuvem, a evacuação, a cidade abandonada. São imagens que qualquer pessoa tem na cabeça, e não são invenção: os dois acidentes aconteceram, mataram, e deixaram território inabitável por décadas.

Agora faça a mesma pergunta de outro jeito. Quantas pessoas morreram no ano passado por causa de uma usina a carvão? Ninguém tem a imagem. Não há cidade evacuada, não há nome de acidente, não há data. E, no entanto, é essa a conta maior, e ela chega todo ano, em silêncio.

Morte nuclear é concentrada, datada e nomeada. Acontece num lugar, num dia, com um nome que entra para a história. É contável, é fotografável, é lembrada quarenta anos depois.

Morte por combustível fóssil é difusa, contínua e anônima. A maior parte das 24,62 do carvão não vem de explosão nem de desabamento em mina: vem de poluição do ar. São infartos, derrames, doenças respiratórias, cânceres de pulmão. Chegam espalhadas por milhões de pessoas, ao longo de décadas, e nenhuma delas tem certidão de óbito que diga "usina termelétrica".

Nenhuma dessas mortes vira manchete. Nenhuma tem aniversário. E somadas, elas são a maior causa de morte por geração de energia que existe. A fama da nuclear não vem de ela matar mais. Vem de ela matar de um jeito que o mundo consegue ver.

A comparação que interessa ao Brasil

Carvão é argumento fácil aqui. O Brasil quase não usa carvão para gerar eletricidade. A comparação que importa neste país é com a hidrelétrica.

No gráfico do início desta página, hidrelétrica registra 1,30 e nuclear 0,07. Mas de onde vêm essas mortes?

O estudo de Sovacool e colegas, que é a base do dado de hidrelétrica, catalogou 26 acidentes hidrelétricos entre 1950 e 2014, com 177.665 mortes ao todo. Dessas, 171.000 vieram de um único evento: o rompimento da barragem de Shimantan, na província de Henan, na China, em 1975, durante uma tempestade severa. Um acidente responde por 96% de todas as mortes por hidrelétrica em sessenta e quatro anos.3

Acidentes catalogados entre 1950 e 2014
 HidrelétricaNuclear
Acidentes registrados26172
Mortes somadas177.6654.803
Do pior evento isolado171.000 (Shimantan, 1975)4.056 (Chernobyl, 1986)
Média por acidente6.83327,9
Mediana por acidente15,50

Quando média e mediana estão a essa distância, o que se está medindo não é uma taxa de fundo. É um evento extremo. O acidente hidrelétrico típico mata 15 pessoas. O acidente nuclear típico, nessa base, não mata ninguém.

As duas são tecnologias de risco de cauda: acidente comum de baixa letalidade, e um evento raro que define a série inteira. A diferença entre elas não está na forma da distribuição. Está no tamanho da cauda. A pior falha hidrelétrica da história matou quarenta vezes mais que a pior falha nuclear.

Isso não é acusação contra a hidrelétrica, e o Brasil não tem barragem de porte comparável ao que rompeu em Henan. É uma constatação sobre como o risco se distribui nas duas tecnologias, e sobre por que a intuição pública, que trata acidente nuclear como categoria à parte, não encontra respaldo no registro.

Uma nota de método que este site não omite

Ao conferir a compilação contra o artigo original, encontramos uma divergência que precisa ser dita.

O artigo de Sovacool e colegas também calcula mortes por terawatt-hora, mas restringindo a análise ao período de 1990 a 2013. Os resultados dele não são os mesmos que aparecem na compilação usada no gráfico do início desta página.

Mortes por TWh: o artigo original e a compilação
FonteSovacool et al., 1990 a 2013Compilação usada acima
Eólica0,0350,04
Hidrelétrica0,02351,30
Solar0,0190,02
Nuclear0,00970,07

Eólica e solar praticamente coincidem. Hidrelétrica e nuclear, não. A explicação mais provável está na janela de tempo. Shimantan é de 1975, fora do recorte de 1990 a 2013 usado pelos autores na normalização. A compilação parece usar o total histórico da hidrelétrica sobre geração recente, e adota premissa própria para a nuclear.4

Dito sem rodeio: o gráfico do início desta página mistura métodos. Ele é a referência mais citada do mundo sobre o assunto, os números de eólica e solar conferem, e a ordem de grandeza contra combustíveis fósseis é robusta, porque essa vem de outro estudo, com outro método, e mede sobretudo poluição do ar. Mas a razão exata entre nuclear e hidrelétrica depende de qual recorte se escolhe, e qualquer pessoa que compare as duas fontes vai encontrar isso.

Vale registrar para onde a divergência aponta. Pela normalização dos próprios autores, restrita a 1990 e 2013, a nuclear aparece abaixo de eólica, solar, biomassa e hidrelétrica. É um resultado mais favorável à nuclear que o do gráfico acima, e não é dele que este site se serve, porque uma janela de vinte e três anos é curta para medir eventos que acontecem uma vez por geração.

Goiânia, e por que ela não entra nesta conta

Foi o maior acidente radiológico da história do Brasil. E não foi um acidente nuclear.

Em 13 de setembro de 1987, uma fonte de césio-137 foi retirada do invólucro de proteção de um aparelho de teleterapia, numa clínica abandonada em Goiânia, e se rompeu. Os restos do conjunto foram vendidos como sucata a um dono de ferro-velho, que notou que o material brilhava em azul no escuro. Por cinco dias amigos e parentes foram ver o fenômeno, e fragmentos do tamanho de grãos de arroz foram distribuídos a várias famílias, até que começaram os sintomas, que ninguém reconheceu como efeito de irradiação.5

O acidente de Goiânia em números, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica
ItemValor
Mortes4
Queimaduras por radiação28 pessoas
Pessoas com contaminação detectável249
Pessoas monitoradascerca de 112.000
Residências demolidas7
Rejeito radioativo geradocerca de 3.500 m³

A distinção não é detalhe técnico nem tentativa de escapar do assunto. Goiânia envolveu uma fonte médica selada, usada em radioterapia, abandonada por uma clínica. Não havia reator, não havia usina, não havia combustível nuclear. O que houve foi falha de controle sobre material radioativo em uso na medicina, um problema real, grave e distinto.

Este site trata Goiânia como o que ela foi. Usá-la como prova contra usina nuclear seria o mesmo erro que o site cobra dos outros: pegar um dado verdadeiro e colar num argumento onde ele não pertence. O que Goiânia de fato mostra é a importância do controle sobre fontes radioativas, inclusive das milhares que circulam hoje em hospitais e indústrias brasileiras, sem nenhuma relação com geração de energia.

E há um dado no mesmo relatório que diz mais sobre o assunto desta página do que qualquer argumento. A agência catalogou todos os acidentes fatais por radiação registrados no mundo entre 1945 e 1987, em instalações nucleares, indústria, pesquisa e medicina. Foram 17 eventos e 59 mortes.

Um único desses 17 eventos envolveu usina de potência. Os outros dezesseis foram fontes de radiografia perdidas, irradiadores, tinta com trítio, montagens críticas de laboratório, esterilizadores, e fontes de teleterapia como a de Goiânia. A própria agência classifica o evento brasileiro como "fonte de teleterapia removida", em linha separada das instalações nucleares.

O que este capítulo sustenta

E o que ele não sustenta, na mesma página.

Sustenta

Que a energia nuclear está entre as fontes mais seguras já medidas, na mesma faixa de eólica e solar, e ordens de grandeza abaixo de tudo que queima combustível.

Sustenta

Que a percepção pública de risco nuclear é desproporcional ao registro histórico, e que a desproporção se explica pela visibilidade das mortes, não pela quantidade.

Não sustenta

Que a nuclear seja a mais segura de todas. Não é. Solar e eólica registram menos.

Não sustenta

Que acidentes nucleares sejam irrelevantes. Chernobyl e Fukushima mataram, deslocaram centenas de milhares de pessoas e deixaram território interditado. O argumento aqui é de escala comparada, não de ausência de dano.

Não sustenta

Uma razão exata entre nuclear e hidrelétrica. Como mostra a nota de método, essa razão depende do recorte de tempo. O que sobrevive aos dois recortes é a direção, não o múltiplo.

Não sustenta

Nada sobre a segurança das instalações brasileiras especificamente. Este capítulo é sobre a tecnologia no mundo. O desempenho de Angra é assunto de outra página, com outras fontes.

O que os dados permitem dizer

Somando poluição do ar e acidentes em toda a cadeia, a energia nuclear registra menos mortes por unidade de energia que a hidrelétrica, o gás, o óleo e o carvão, e mais que a eólica e a solar. Esse resultado inclui Chernobyl e Fukushima.

Fontes

  1. Mortalidade comparada por unidade de energia. Our World in Data, "What are the safest and cleanest sources of energy?", a partir de Markandya e Wilkinson (2007), The Lancet 370(9591), e Sovacool et al. (2016), Journal of Cleaner Production 112, pp. 3952 a 3965. Carvão 24,62; óleo 18,43; gás 2,82; hidrelétrica 1,30; nuclear 0,07; eólica 0,04; solar 0,02 mortes por TWh. Compilação secundária de literatura primária, com método declarado. Inclui poluição do ar, não só acidentes. Os autores registram que os dados de fósseis vêm de usinas europeias, onde o controle de poluição é mais rígido que a média mundial, e que por isso a estimativa provavelmente subestima o número global de mortes por carvão e óleo. Voltar
  2. Mortes agudas em Chernobyl. Organização Mundial da Saúde, "Chernobyl: the accident, Q&A", sintetizando o relatório da própria OMS de 2006 e o do UNSCEAR de 2011. Dos 600 trabalhadores presentes no sítio na madrugada de 26 de abril de 1986, 134 receberam doses de 0,8 a 16 Gy e desenvolveram síndrome aguda de radiação; desses, 28 morreram nos primeiros três meses. Voltar
  3. Base de acidentes, 1950 a 2014. Sovacool et al. (2016), Tabelas 2, 3 e 4. Hidrelétrica: 26 acidentes, 177.665 mortes, média 6.833,27 e mediana 15,50; o rompimento de Shimantan, em Henan, em 1975, responde por 171.000 mortes. Nuclear: 172 acidentes, 4.803 mortes, média 27,92 e mediana 0,00; Chernobyl responde por 4.056 e Fukushima por 573. Voltar
  4. Divergência entre o artigo e a compilação. Sovacool et al. (2016) calculam mortes por TWh na subamostra normalizada de 1990 a 2013, que soma 143.771 TWh: eólica 0,035; hidrelétrica 0,0235; solar 0,0190; biomassa 0,0164; nuclear 0,0097; biocombustíveis 0,0048. A comparação com os valores da compilação foi feita por este site, conferindo uma fonte contra a outra. Voltar
  5. Acidente radiológico de Goiânia. Agência Internacional de Energia Atômica, The Radiological Accident in Goiânia, Viena, 1988, Publicação 815. Fonte selada de césio-137 de teleterapia, 50,9 TBq. Quatro mortes, 28 queimaduras por radiação, 249 pessoas com contaminação detectável entre cerca de 112 mil monitoradas, 7 residências demolidas e cerca de 3.500 m³ de rejeito. A Tabela VIII do mesmo relatório reúne os acidentes radiológicos fatais de 1945 a 1987: 17 eventos e 59 mortes, das quais 40 de trabalhadores e 19 de público. Chernobyl é a única entrada de usina de potência. Goiânia aparece classificada pela agência como "removed teletherapy source". Voltar

Todos os números desta página vêm de fonte primária conferida. As séries completas e os limites de cada dado estão nas notas acima; as regras do acervo e os conflitos entre números estão na página de método.