Energia Nuclearquanto custa depender de um fornecedor só?
O que a Alemanha ensina, e o que ela não ensina
Em 2021, 65,4% de todo o gás natural importado pela Alemanha vinham da Rússia. Em 2023, zero. Nos anos seguintes, o preço da eletricidade para a indústria alemã ficou em torno do dobro do patamar anterior à ruptura e o do gás ficou quase três vezes acima do nível de 2020 — nenhum dos dois voltou ao que era1.
Esta página sustenta uma afirmação estreita: depender de um único fornecedor de um insumo energético crítico tem preço, e ele chega rápido. Ela não sustenta a frase que costuma vir depois — "a energia nuclear teria evitado a crise alemã". A razão pela qual não sustenta está escrita aqui, na seção onde os números mostram seus limites.
Tudo nesta página vem de três séries do Eurostat, a estatística oficial da União Europeia, consultadas na própria API em 27 de agosto de 2026, filtradas para a Alemanha, em euro e sem impostos1.
Um fornecedor, dois terços do gás
A dependência não começou em 2022. Ela aparece na série ano a ano, e cresceu em silêncio.
A série de importação por país parceiro mostra o desenho completo: em 2018 a Rússia respondia por 43,9% do gás importado pela Alemanha, e em 2019 caiu para 31,1%. Em 2020 subiu para 52.464 milhões de metros cúbicos, 65,2% do total, e em 2021 chegou ao ápice: 55.443 milhões de metros cúbicos, 65,4% de um total de 84.8081. Dois em cada três metros cúbicos.
Em 2022 a participação caiu para 29,6%, ainda com 25.941 milhões de metros cúbicos. Em 2023 e 2024, a série registra zero. O total importado acompanhou a ruptura e encolheu: saiu de 84.808 milhões de metros cúbicos em 2021 para 70.860 em 2024, uma redução de 16%1. A Alemanha comprou menos gás e pagou muito mais por ele.
Um detalhe de leitura importa aqui: o recuo do volume total não é consequência declarada da perda russa na série — a estatística registra apenas o que entrou de cada parceiro declarado, e não diz o que teria entrado no lugar.
O preço dobrou e não voltou
Duas séries semestrais, a mesma geometria: um salto em 2022 e um platô que não desfaz o salto.
A eletricidade para consumidores não domésticos na banda de consumo IC — de 500 a 1.999 MWh por ano — estava em 0,0908 euro por kWh no primeiro semestre de 2021. No primeiro semestre de 2022 estava em 0,1512: alta de 56% em seis meses. O pico da série é 0,2010, no segundo semestre de 2024, 121% acima do início de 20212.
Em 2025 a série recua para 0,1828 — ainda o dobro do nível de 2021, quatro anos depois da ruptura. É esse o achado da série, mais que o pico: o preço não voltou.
O gás tem a mesma forma, com amplitude maior. Na banda I3, de 10.000 a 99.999 GJ por ano, o preço caiu ao piso de 0,0238 euro por kWh no segundo semestre de 2020 e chegou a 0,0668 no segundo semestre de 2022: alta de 181%, quase o triplo. No primeiro semestre de 2025 estava em 0,0552, ainda 132% acima do nível de 20203.
As duas séries são médias de semestre para consumidor final industrial. Elas não mostram o pico do mercado atacadista de agosto de 2022, que foi muito mais alto, e não deviam: são números que respondem a perguntas diferentes. Esta página é sobre o custo que se instalou na conta de uma indústria ao longo de anos, não sobre o susto de um mês no balcão de comércio.
Os limites destes números
Quatro escolhas de leitura precedem qualquer conclusão tirada das séries, e todas estão declaradas antes do uso.
Impostos excluídos. As três consultas foram feitas na variante X_TAX, sem impostos e taxas. É escolha deliberada: isola o efeito de mercado e evita que uma mudança de política tributária contamine a série. O preço efetivamente pago pela indústria alemã é maior que o publicado aqui4.
A banda de consumo é parte do número. Eletricidade na banda IC, gás na banda I3. Um consumidor fora dessas faixas paga outros preços, e comparar esta série com a conta residencial de um país qualquer não tem sentido.
Medidas de alívio existiram. Em 2023 a Alemanha adotou o Strompreisbremse e o Gaspreisbremse, freios de preço para consumidores. Como os valores desta página excluem impostos e taxas, o efeito dessas medidas sobre a série é limitado — mas não é nulo, e o platô de 2023 em diante não é só mercado.
A série de 2025 pode mudar. O Eurostat revisa dados recentes. O fichamento que originou estes gráficos registra o segundo semestre de 2025 na eletricidade com exatamente o mesmo valor do primeiro, 0,1828, e este site preferiu encerrar a série em 2025-S1 a publicar dois semestres idênticos sem poder confirmar que a repetição é fato e não registro pendente4.
O zero da importação russa em 2023 e 2024 é o parceiro declarado na estatística de gás por gasoduto. Ele não exclui a hipótese de gás russo chegando à Alemanha por triangulação — como GNL vendido por terceiros. A série registra o que o país declara comprar de quem, não a origem final da molécula4.
Onde a lição para de servir
O caso alemão é sobre concentração de fornecedor. Não é sobre qual fonte de energia teria resolvido o problema.
O choque foi de gás. Boa parte do impacto do preço do gás se deu em aquecimento de ambientes e em matéria-prima para a indústria química — dois usos em que geração elétrica não substitui o insumo. Por isso este site não afirma que uma matriz com mais nuclear teria evitado a crise alemã, e nenhuma das séries desta página sustenta essa frase5.
Há também o que as séries não contam. Elas mostram que o gás russo caiu a zero, mas não dizem de onde veio o substituto nem a que custo — uma lacuna declarada neste acervo, que não fichou a reconfiguração do suprimento alemão5. Antes de 2022, a Alemanha tinha um mercado europeu integrado e uma frota de fornecedores que não está no escopo desta página. Comparar essa posição com a de qualquer país que não a tem seria trapacear com o leitor.
O que sobra, e sobra inteiro, é a forma do risco: uma economia industrial avançada transferiu dois terços de um insumo crítico a um único fornecedor, perdeu o fornecedor em dois anos e pagou, nos quatro anos seguintes, o dobro pelo que comprava antes. Nenhuma fonte é necessária para ver que o problema é de concentração — e nenhuma série é necessária para transformar isso em defesa de uma tecnologia.
A lição, em uma frase
Dois terços do gás vinham de um único país. Dois anos depois, eram zero — e a eletricidade da indústria alemã custava o dobro, quatro anos depois, sem ter voltado ao preço anterior. Isso não é um argumento sobre reatores: é um argumento sobre depender de um fornecedor só.
Fontes
- A importação alemã de gás por país parceiro. Eurostat, série nrg_ti_gas, filtros geo=DE, currency=EUR, tax=X_TAX, consulta de 27/08/2026 via API de disseminação. Dado anual, em milhões de metros cúbicos. Rússia: 38.772 em 2018 (43,9% do total importado), 29.516 em 2019 (31,1%), 52.464 em 2020 (65,2%), 55.443 em 2021 (65,4%), 25.941 em 2022 (29,6%), zero em 2023 e em 2024. Total importado: 88.348 (2018), 94.787 (2019), 80.439 (2020), 84.808 (2021), 87.695 (2022), 71.591 (2023), 70.860 (2024) — queda de 16% entre 2021 e 2024. O zero é o parceiro declarado em gás de gasoduto; a série não exclui GNL russo reexportado por terceiros. O recuo do volume total não é atribuído a nenhuma causa pelo Eurostat. Voltar
- Preço de eletricidade para a indústria alemã. Eurostat, série nrg_pc_205, consumidores não domésticos, banda IC (500 a 1.999 MWh por ano), euro por kWh excluindo impostos e taxas, média semestral, consulta de 27/08/2026. Pontos: 0,0855 (2019-S1), 0,0718 (2019-S2), 0,0849 (2020-S1), 0,0885 (2020-S2), 0,0908 (2021-S1), 0,0967 (2021-S2), 0,1512 (2022-S1), 0,1782 (2022-S2), 0,1904 (2023-S1), 0,1890 (2023-S2), 0,1976 (2024-S1), 0,2010 (2024-S2), 0,1828 (2025-S1). As variações citadas nesta página são cálculos deste site sobre esses valores: 56% entre 2021-S1 e 2022-S1, 121% entre 2021-S1 e 2024-S2, e o nível de 2025-S1 aproximadamente o dobro de 2021-S1. Voltar
- Preço de gás natural para a indústria alemã. Eurostat, série nrg_pc_203, consumidores não domésticos, banda I3 (10.000 a 99.999 GJ por ano), euro por kWh excluindo impostos e taxas, média semestral, consulta de 27/08/2026. Pontos: 0,0253 (2019-S1), 0,0245 (2019-S2), 0,0244 (2020-S1), 0,0238 (2020-S2), 0,0297 (2021-S1), 0,0445 (2021-S2), 0,0520 (2022-S1), 0,0668 (2022-S2), 0,0622 (2023-S1), 0,0556 (2023-S2), 0,0580 (2024-S1), 0,0563 (2024-S2), 0,0552 (2025-S1). As variações citadas — 181% entre 2020-S2 e o pico de 2022-S2, e 132% entre 2020-S2 e 2025-S1 — são cálculos deste site sobre a série. Voltar
- Os quatro limites da leitura. Registro metodológico do fichamento que originou esta página (Eurostat, consulta de 27/08/2026): (1) os valores excluem impostos e taxas, escolha deliberada para isolar o efeito de mercado, o que torna o preço publicado menor que o efetivamente pago; (2) as bandas IC e I3 são parte do número, e faixas de consumo diferentes têm preços diferentes; (3) a Alemanha adotou Strompreisbremse e Gaspreisbremse em 2023, com efeito limitado sobre séries sem impostos, mas não nulo; (4) são médias semestrais de preço ao consumidor final industrial, não o pico do mercado atacadista, que em agosto de 2022 foi muito superior. O fichamento registra ainda que a série de 2025 está sujeita a revisão pelo Eurostat e que nele o segundo semestre de 2025 aparece com o mesmo valor do primeiro na eletricidade (0,1828) — este site encerra a série em 2025-S1 por não poder confirmar se a repetição é fato ou registro pendente. Voltar
- O que o caso não autoriza afirmar, e o que ele não conta. A leitura do fichamento é explícita: o material sustenta o custo da concentração de fornecedor e não autoriza afirmar que energia nuclear teria evitado a crise, porque o choque foi de gás e boa parte do impacto se deu em aquecimento e em matéria-prima da indústria química, usos em que geração elétrica não substitui o insumo. Duas lacunas declaradas: as séries do Eurostat não explicam a reconfiguração do suprimento alemão depois de 2022 — quem forneceu o que substituiu o gás russo, e a que preço — e o estudo anual do Fraunhofer ISE sobre a eletricidade alemã de 2024, procurado para esta página, não estava acessível, então nenhum dado desta página vem dele. Voltar
Todos os números desta página vêm de fonte primária conferida. As séries completas e os limites de cada dado estão nas notas acima; as regras do acervo e os conflitos entre números estão na página de método. O elo brasileiro da mesma tese — a etapa do ciclo do combustível que o Brasil contrata de um único fornecedor — está em A etapa que falta.